terça-feira, 1 de março de 2011

Avião com brasileiros que estavam na Líbia pousa no Recife

"A ansiedade para voltar ao Brasil era muito grande", diz um diretor da Queiroz Galvão

Chegou ao Recife, por volta das 18h desta segunda-feira, o avião fretado pela construtora Queiroz Galvão com 148 brasileiros que estavam na Líbia. Com o acirramento dos conflitos no país, a empresa resolveu colocar os funcionários na casa de um dos diretores e em hoteis mais afastados. Eles deixaram o país em um navio, desembarcando na Grécia no domingo. Antes de chegarem a Recife, eles fizeram escala em Lisboa, onde um grupo de portugueses e espanhóis da empresa desembarcou.

No Aeroporto Internacional do Recife-Guararapes/ Gilberto Freyre, o clima era de muita ansiedade. Dezenas de familiares e amigos dos 58 pernambucanos do grupo esperavam por notícias no saguão de desembarque. Alguns traziam faixas, flores e balões.
"Nosso desespero começou quando cortaram a internet e a comunicação ficou mais difícil, mas graças a Deus tudo acaba hoje", disse a designer Margarida Correia Lima, que esperava a chegada do sobrinho Ricardo César.
O diretor da construtora na África do Norte e Oriente, Marcos Jordão, de 54 anos, foi o primeiro passageiro a desembarcar. Ele disse que os distúrbios no país começaram na quarta-feira, e na casa de alguns engenheiros, em Benghazi, começaram a ouvir tiroteios. Apesar de ninguém ter presenciado o conflito.
A partir daí a empresa decidiu retirá-los do local e levá-los para a casa de Jordão, que ficava mais afastada, e os que estavam mais distantes em um hotel.
"Em nenhum momento nenhum de nós esteve em perigo ou na linha de fogo direto, mas a ansiedade para voltar ao Brasil era muito grande", afirmou Jordão.
Segundo ele, a construtora possui seis contratos em cidades próximas a Benghazi. No domingo, ele saiu da casa para visitar o outro grupo e, mesmo evitando os locais de conflito, disse ter sido possível ver que a cidade estava sem policiamento e sem exército na rua.
Jordão afirmou que ainda é cedo para dizer se a empresa vai voltar a atuar no país. "Vamos ter que estudar, ver o que vai ser daqui pra frente."
Brasileira grávida
"A sensação é de nascer de novo e ainda com mais uma vida aqui dentro". Assim afirmou estar se sentindo a assistente de planejamento Jaqueline Siqueira, de 28 anos e grávida de quatro meses, após aterrissar no Recife.
O grupo ficou cerca de 22 horas em viagem de navio entre Benghazi e Atenas, na Grécia, e outras 15 horas no voo de Atenas a Recife. Chorando muito, Jaqueline explicou que a preocupação no país era muito grande. "Meus vizinhos tinham duas crianças pequenas e estavam a 200 metros do conflito. Era muito tiro e muita bomba." Ela fazia parte do grupo de 56 pessoas que ficou na casa de Marcos Jordão, que ficava mais afastada da cidade.
Ela estava na Líbia há dois anos e há um ano não vinha ao Brasil e foi recebida pelos pais e sogros. Segundo ela, o marido dela, o engenheiro Jurandir Coelho, de 40 anos, que também trabalha na Queiroz Galvão, voltou um dia para a casa deles para buscar os pertences do casal e viu que mataram uma pessoa na frente do local e tentaram entrar na casa para saqueá-la.
Jaqueline não descarta voltar ao país depois que os conflitos forem resolvidos. "O povo de lá é muito acolhedor, o doido é o presidente."
Já o encarregado de mecânica da empresa, Cícero Gonçalves, de 46 anos, disse que, por vontade dele, não volta mais para a Líbia. Abraçado a dois dos três filhos, ele disse que temia muito um bombardeiro aéreo, e que só pensava nisso, mas que agora estava muito feliz em voltar para casa.
O mecânico Legildo Novacosque, de 48 anos, disse não sentiu medo em momento algum e que não via nada do hotel onde estava. Ele estava lá desde o dia 2 de janeiro. A mulher dele, Ledivânia, de 38 anos, que o aguardava no Recife, disse que não permaneceu tão tranquila quanto o marido. "A gente fica com muito medo por causa da distância, mas ele sempre dava notícias. Mas teve uma vez que fiquei dois dias sem notícias, aí fiquei ansiosa demais, sem saber o que estava acontecendo."
Os passageiros que moram em outros Estados - no voo vieram brasileiros provenientes da Bahia, do Maranhão, São Paulo, Paraíba, Pará, Distrito Federal, Goiás, Rio de Janeiro, Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Amazonas, Santa Catarina e Sergipe - vão seguir em conexões ainda nesta segunda-feira ou na terça-feira.











Meninos líbios sentam-se no canhão de tanque do Exército destruído para celebrar a liberdade de Benghazi, Líbia (28/02)

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