Avanço dos protestos põe regime líbio em xeque e à beira da desintegração
Depois de uma semana de protestos e violência, o fogo da revolução chegou a Trípoli - literalmente. E o regime repressivo de Khadafi parecia ontem estar por um fio
A autoridade do líder líbio, Muammar Khadafi, e a sobrevivência do seu regime repressivo de mais de 40 anos estavam ontem por um fio depois de milhares de pessoas marcharem pelas ruas da capital, Trípoli, desafiando rajadas disparadas de helicóptero, para exigir liberdade e democracia.
Os acontecimentos sucederam-se ontem a uma velocidade estonteante. Milhares de soldados do Exército desertaram e juntaram-se aos revoltosos, cedendo o controlo de dezenas de localidades; ministros, diplomatas e outros membros do aparelho de Estado demitiram-se e rebelaram-se, deixando o Governo à beira do colapso; as tribos, caladas durante décadas, fizeram finalmente ouvir a sua voz contra o regime.
E, depois de uma semana de protestos e violência, o fogo da revolução chegou a Trípoli - literalmente. Esquadras de polícia, o edifício do Parlamento, o tribunal, a sede da televisão estatal, agências bancárias e dezenas de edifícios foram incendiados pelos manifestantes, que encheram as ruas da capital líbia exigindo a demissão de Khadafi.
O discurso intimidatório do filho de Khadafi, Saif al-Islam, que no domingo à noite foi à televisão prometer "rios de sangue" e vaticinar o mergulho do país na guerra civil, não surtiu o efeito desejado. As forças de segurança e apoiantes do regime bem tentaram evitar que a revolta chegasse à capital, mas não foram capazes de impedir o avanço dos protestos.
A televisão líbia tinha anunciado uma operação policial contra "sabotadores e terroristas", e apelado à "cooperação da população com as forças de segurança" para ser reposta a normalidade no país.
Mas as descrições das agências noticiosas e as informações publicadas em redes sociais como o Twitter e o Facebook a partir de Trípoli pintavam um retrato de caos e extrema violência. As forças fiéis ao regime recorreram a helicópteros e balas reais para dispersar os manifestantes - mais de 60 pessoas morreram, avançou a Al-Jazira, uma informação impossível de confirmar.
"Quando [um líder] bombardeia a sua própria capital, dificilmente consegue sobreviver. Este parece ser o derradeiro acto desesperado de Khadafi", comentou à Reuters o analista Julien Barnes-Dacey, do grupo Control Risks. "Este não é um regime habituado a cedências, podemos esperar uma boa dose de caos e sangue. Mas, pela evolução da situação, julgo que tudo se resolverá muito depressa: 48 ou 72 horas, no máximo", estimou Dirk Vandewalle, um especialista na Líbia da Universidade de Dartmouth, citado pela Bloomberg.
O antigo porta-voz do Governo, Mohamed Bayou, emitiu um comunicado criticando o discurso de Saif al-Islam, um sinal de que as elites estão a abandonar a família Khadafi.
Bengasi com os revoltosos
Em Bengasi, onde os protestos começaram há uma semana, os manifestantes aproveitaram as deserções nas fileiras do Exército para assumir o controlo - assim como noutras localidades que estão já nas mãos dos revoltosos.
Segundo a Federação Internacional de Ligas dos Direitos do Homem, "muitas vilas já caíram, especialmente na costa leste. Os militares estão a juntar-se ao movimento contra Muammar Khadafi", declarou a presidente Souhayr Belhassen à AFP - informando que a região de fronteira com o Egipto está agora sob controlo dos manifestantes, o que poderá facilitar a entrada de jornalistas internacionais no país. A cidade de Tobruk, no extremo leste do país, e ainda Misrata, Khoms, Tarbounah, Zeiten, Zaouia e Zouara também estão nas mãos dos revoltosos, acrescentou.
Ahmad Jibreel, um diplomata de carreira entrevistado pela Al-Jazira, acredita na expansão dos protestos para outros pontos do país, alimentados pelo ressentimento da população com a reacção das autoridades.
"Os guardas de Khadafi começaram a atirar sobre as pessoas no segundo dia de protestos, na cidade de Al Bayda. Havia 300 manifestantes e eles mataram duas pessoas. No dia seguinte, no funeral já havia 5 mil manifestantes. Eles [guardas] mataram 15 pessoas, e no dia seguinte já havia 50 mil manifestantes...", contou. "Ou seja, quanto mais pessoas os guardas de Khadafi matarem, mais pessoas vamos ter nas ruas", resumiu.
Enquanto isso, o regime está em desintegração. Ao final da manhã, o ministro da Justiça, Mustafa Abdul Jalil, apresentou a demissão, incomodado com o "excesso de violência contra os manifestantes" (ou seja, o recurso a balas reais pelas autoridades).
O jornal árabe em inglês GulfNews reportou a rebelião de funcionários de topo do Governo, incluindo diplomatas - os embaixadores da Líbia no Reino Unido, China, Índia e Indonésia terão abandonado os seus postos ontem. Na véspera, já fora confirmada a demissão do representante líbio na Liga Árabe.
Dois coronéis da Força Aérea líbia aterraram os seus caças na ilha de Malta e pelo menos um deles solicitou asilo político, explicando que tinha recusado cumprir ordens para bombardear os manifestantes concentrados na capital.
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