domingo, 27 de fevereiro de 2011

Kadafi conclama partidários a defender a Líbia

Pronunciamento em Trípoli é feito em meio a confrontos na capital; EUA e União Europeia anunciam que imporão sanções
Em um pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder da Líbia, Muamar Kadafi, conclamou uma multidão de partidários na praça central de Trípoli, capital do país, a lutar contra os opositores do regime e a "defender a nação". Segundo o New York Times, é impossível saber se o discurso foi ao vivo ou se era gravado.
Vestido com um chapéu de pelo e óculos de sol, Kadafi dirigiu-se à multidão do parapeito do Castelo Vermelho, um forte histórico, tendo uma visão geral da Praça Verde, onde mais de mil partidários portavam fotos do líder líbio e bandeiras verdes.
Balançando seu punho fechado no ar, Kadafi disse a seus simpatizantes para "retaliar contra eles (opositores)" e para "se preparar para
defender a nação e o petróleo".

"O povo líbio ama Kadafi", disse à multidão. Segundo ele, "nós podemos esmagar qualquer inimigo. Quando necessário, vamos abrir os arsenais para armar todo o povo líbio e todas as tribos líbias". Kadafi acrescentou: "Estamos prontos para triunfar sobre o inimigo."

Mandando beijos para os aliados, Kadafi disse: "Somos a nação da dignidade e da integridade. Esta nação triunfou sobre (a ex-colonizadora) Itália. Dancem, cantem e preparem-se... o espírito de vocês é mais forte do que qualquer tentativa dos estrangeiros e dos inimigos de nos destruir", disse Kadafi, que está no poder há 42 anos.

O discurso foi feito enquanto o Conselho de Segurança da ONU se prepara para discutir nesta sexta-feira um projeto de sanções contra os líderes líbios e os EUA e a União Europeia anunciaram medidas de punição contra o país. Além disso, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) também se reunirá em caráter de emergência para discutir a crise da Líbia.

As medidas de pressão internacional ocorrem em meio a informações de que forças de segurança abriram fogo durante protestos de milhares de manifestantes na capital do país.

Confrontos em Trípoli

Em pelo menos três bairros da capital houve registro de tiroteios depois das preces de sexta-feira, com as forças de segurança atuando para dispersar os manifestantes que se reuniam para marchar nas ruas ou para deliberadamente atingi-los.

Líderes rebeldes disseram que estão enviando forças para cidades vizinhas e para outras partes do país para unir-se aos combates. Também há informações não confirmadas de que uma base aérea fora da capital está sob o controle dos opositores.

Algumas testemunhas, em entrevistas por telefone com agências de notícias, disseram que vários foram feridos ou mortos em Trípoli. Com o acesso limitado aos jornalistas, é impossível verificar os relatos de forma independente


Citando uma testemunha não identificada, a Reuters afirmou que a violência deixou pelo menos cinco mortos no distrito de Janzour, no oeste da capital. Outras testemunhas de bairros do leste da capital, como Ben Ashur e Fashloum, também disseram que houve disparos contra opositores de Muamar Kadafi que gritavam slogans contra o líder líbio.
"As forças de segurança dispararam contra os manifestantes sem fazer distinção. Há mortos nas ruas de Sug Al Joma", indicou um habitante desse bairro citado pela agência EFE.
A tensão vinha escalando ao longo da semana, com protestos na capital aguardados para depois das preces. Segundo o site privado líbio Libyapress, os fiéis organizaram um protesto após a cerimônia religiosa e foram recebidos com violência pelas forças de Kadafi.
Trípoli se tornou uma espécie de bastião do regime, patrulhada pelas forças especiais do governo. Nos últimos dias, testemunhas disseram à BBC que o clima na capital era de uma tensa calma e que as forças de Kadafi podiam ser vistas em toda a cidade.
Os desdobramentos da crise líbia já indicavam o que vinha sendo chamada de antemão "a batalha de Trípoli". O leste do país – onde estão cidades como Benghazi, Tobruk e Ajdabiya – permanece sob controle firme da oposição, mas o governo lançou ofensivas para tomar o controle das localidades próximas ou a oeste de Trípoli, como Zuara, Sabratha, Misrata e Al Zawiya.
Até a quinta-feira, os relatos eram de que a cidade de Al Zawiya, a 50 km de Trípoli, era palco de alguns dos mais sangrentos enfrentamentos. Na terceira cidade do país, Misrata, a 200 km da capital, foram registrados combates pelo controle do aeroporto. Mas os relatos são que a cidade também caiu em favor dos rebeldes.
Nesta sexta-feira, centenas de milhares se reuniram em Benghazi, epicentro dos protestos contra o regime de Kadafi, para exigir a renúncia do líder líbio.

Pressão internacional
Os EUA anunciaram nesta sexta-feira que imporão sanções à Líbia em resposta à repressão do regime aos opositores que reivindicam a renúncia de Kadafi. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, indicou que, entre outras medidas, os EUA devem congelar a venda de armas à Líbia e a "limitada" cooperação militar existente entre os dois países. Além disso, os EUA colocaram bancos para monitorar e notificar movimentações financeiras do país.
Carney afirmou que os EUA finalizarão o processo das punições nesta sexta-feira. Segundo ele, Washington também está trabalhando com os parceiros europeus em sanções adicionais e em outras ações multilaterais.
A decisão de impor sanções unilaterais ao regime foram anunciadas depois de uma autoridade americana ter informado que os EUA fecharam sua embaixada em Trípoli após a retirada de todos os seus funcionários por meio de um navio e um voo fretado. Segundo a autoridade, as operações na embaixada foram suspensas por causa da deterioração da situação de segurança. A retirada da Líbia também inclui um grupo de 148 brasileiros que estavam em Benghazi, segunda maior cidade do país, que embarcaram em um navio para Atenas, na Grécia.
Nesta sexta-feira, a União Europeia (UE) fechou um acordo sobre um novo pacote de sanções contra a Líbia, entre as quais se destacam um embargo armamentista e o congelamento dos bens do clã Kadafi em território comunitário, informou a Alemanha. De acordo com o Ministério de Assuntos Exteriores alemão, a medida foi pactuada nesta sexta-feira entre os 27 países do bloco e será sancionada formalmente no início da semana que vem.
Dentre as sanções estipuladas está também a proibição a Kadafi e a seus familiares de entrar em quaiquer dos países da UE. Em outra medida de pressão, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU adotou nesta sexta-feira uma resolução por consenso para enviar uma missão para investigar as violações na Líbia e recomendou que o país seja suspenso da entidade.
Porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, anuncia sanções dos EUA à Líbia depois da repressão às manifestações do país

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